31.8.05

A morte dos esnobes do rock

Toda pessoa que tem uma coleção de discos que passa de três dígitos e fala dela como se fosse carne da própria carne (creio que todos os leitores desse blog) deveria ler este texto sobre como a era mp3 esta levando à extinção da figura do rock snob -- sujeitos que têm coleções de discos que passam dos três dígitos e falam delas como se fossem carne da própria carne. O acesso está cada vez mais banal, acabando com a figura do grande colecionador -- aquele farol a quem as pessoas se reportavam respeitosamente. Vai um trecho, naquela tradicional tradução sem compromisso.

Existe um lado obscuro na era do IPod. O papel do esnobe sobrevive pela exclusividade. E ter uma grande e eclética coleção musical se tornou banal. Graças ao IPod, e ao formato digital, qualquer um pode, com um amigo e com a internet, rapidamente construir uma gloriosa coleção de 10 mil músicas. Aumentando o problema, esse processo frequentemente acaba atingindo os rock snobs. De uma hora pra outra, fomos atacados por parasitas musicais. Por exemplo, um amigo de gosto musical mediano vampirou 700 músicas do meu computador. Ele ofereceu sua coleção em troca, mas não havia muito. (...) Em termos Rock Snobs, eu sou da familia real e ele, um plebeu que certamente não merecia aquele disco obscuro de músicas do AC/DC tocadas em versões acústicas, mas que certamente foi correndo se exibir aos seus amigos com elas. Muito pior foi a namorada para quem dei um IPod. Ela o plugou em meu computador e logo estava segurando em sua mão uma duplicata da minha coleção de 5 mil músicas que me custou 20 anos, e milhares de dólares e horas para acumular. Ela baixou tudo em menos de cinco minutos. E, poucos meses depois, ela se foi, levando junto meu íntimo DNA musical.
Lógico que não trocaria as facilidades de hoje pela vida de cinco anos atrás, cheia de discos inatingíveis. Ainda que a relação com os álbuns fosse mais íntima e saborosa. É preciso entender esse texto como uma piada politicamente incorreta. Mas, não dá pra negar: às vezes incomoda pensar em todo esforço e dinheiro empregado em uma coisa que hoje é tão facilmente replicável. Nós -- velhos mal-humorados acostumados a bater perna atrás de discos em lojas de outros velhos mais mal-humorados -- temos duas vinganças. Podemos pegar mais pesado com as bandas das novas gerações (se for ruim, é por incompetência e preguiça de ouvir coisas boas). E dizer que na nossa época era mais gostoso.

Do The New Republic, aqui.

3 comentários:

Anônimo disse...

assim - se for para ficar com o coração partido, prefiro que ela se vá com uma cópia...

Anônimo disse...

Na real isso acaba com aquele velho problema das separações:

- Esse Rubber Soul é meu.
- Nada disso.
- Como assim!? Eu baixei ele no ano passado.
- Nanana. Eu que peguei no slsk. Sei até de qual usuário.
- Tá bom, pode ser, mas o London Calling eu tenho certeza: é meu!
- Tudo bem, eu nunca gostei de Clash. Aliás, eu odeio punk inglês. Era tudo fingimento.
- Ah é? Pois fique você sabendo então que eu odeio a primeira fase do Pink Floyd... Ei, onde você pensa que vai com esse mouse pra cima dos meus Led Zeppelin?

Alcio disse...

Pues... Pensava algo parecido com isso não faz muito tempo, mas cheguei à conclusão que "eles", por mais que pilhem coleções inteiras do nada - para nada - , jamais terão a emoção de pegar um disco dos Stooges (por exemplo) e dizer "whoah!".
É por esses suspiros que eu vivo. ehehheehehehh