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26.5.06

Salvos pelo Backup IV

Crônica sobre exigências de camarim
Texto provavelmente de maio de 2001
O aquivo original não tinha título
Nota: de onde eu tirei essa comparação com faraós?!?

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Champanhes francesas; água mineral para a banheira; guardanapos com bordas em ouro; besouros e outros insetos para dar de comer a animais de estimação peçonhentos; um número exato de toalhas, cada uma de uma cor diferente.

Uma das coisas mais estranhas e extravagantes do mundo é exigência de camarim de astro do pop. Contar quais eram os pedidos de bandas que alcançaram o estrelato como, por exemplo, os Guns'n'Roses, é tarefa para dezenas de páginas. Imagine então escrever um livro contando a história das exigências, começando em Elvis até Back Street Boys! É tarefa tão grande que só poderia ser feita pela mesma equipe editorial que escreveu a Bíblia. Mas seria um dos documentos mais importantes da Idade Contemporânea.

Dá para medir o nível de humildade de uma banda que depois de 15 anos de estrada pede “umas cervejas e umas toalhas brancas”, como foi o caso do Mudhoney, quando de passagem pelo Brasil.

Mas a turma de Mark Arm é a exceção. Na maioria dos casos, as exigências são diretamente proporcionais à direção das setas dos gráficos de vendas. Se as prateleiras estão vazias: copos de cristal, frutas lavadas com água mineral e festa particular no puteiro mais chique da cidade. Já CDs encalhados dão direito a passagem de ida e volta, mais um quartinho de hotel próximo à rodoviária e, por extremo luxo, a Playboy da Feiticeira.

Uma profissão que poderia valer-se dessa hipotética biografia coletiva da alma do showbiz é a dos psiquiatras. Explicar porque uma criança de cinco anos tem tara pela mãe e quer o pescoço do pai é fácil. Mas é tarefa para um exército de Freuds dar uma explicação plausível para o fato de uma banda exigir ovelhas no camarim.

Pense na vantagem histórica de um livro desses. Até hoje o comportamento estranho dos Faraós é motivo de controvérsia. Todos têm teses, mas ninguém tem a definitiva. Se levar tesouro para o túmulo permanece algo estranho até hoje, apesar das centenas de historiadores debruçados sobre o tema, imagine o que o futuro não reserva aos que fazem da profissão de produtor de show a mais ingrata de que já se ouviu falar. Muita discussão seria poupada porque, por mais que se diga que o rock está reduzido a escombros, eles não são tão palpáveis como de outras culturas. E mais, suas histórias são muito mais inverossímeis.

PS: Para compreender o sentido da série vá ao post original "Salvos pelo Backup"

25.5.06

Salvos pelo Backup III

Outra crônica, agora sobre computadores e internet
Texto de março de 2001
Título original: O profeta e o pagão virtual
Nota: é meio off topic esse texto, mas fora o título, gosto dele. Por isso a exceção


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A primeira vez que ouvi falar em internet foi no inverno de 1995. Meu professor, um senhor já de avançada idade, cabelos grisalhos e a fala mansa de quem freqüentou seminário, tinha os olhos arregalados como se tivesse visto o próprio Jesus Cristo. Fã ardoroso de literatura, ele acabara de falar com uma pessoa que lhe explicara o bê-a-bá da rede. De posse de umas poucas informações, dividiu com a turma a novidade. “Uma rede que dá acesso ao acervo de todas as bibliotecas do mundo”, repetiu a frase inúmeras vezes, em um deslumbramento inadequado para um homem com a idade dele.

Guardei na memória aquele dia mais do que qualquer outra aula. Não porque morresse de amores por computadores, muito pelo contrário: meu primeiro contato com eles foi lá pelo ano 3 AM (Antes do Mouse). E a experiência de uma tela preta com um cursor verde piscado bem na minha cara de e-agora-o-faço-o-quê? foi frustrante como a de um guri que ganha um bola de futebol no Natal e no dia seguinte, ao primeiro chute, a fura na cerca de arame farpado do vizinho.

Embora desconfiado, guardei a informação sobre aquela “rede que dá acesso a todas as bibliotecas do mundo”. Tudo bem que o professor ficasse entusiasmado, afinal, ele é o típico homem faria qualquer coisa para ler todos os livros do mundo, mesmo em uma tela de computador. Mas eu não. Achava que, assim como microondas foram feitos para aquecer comida e não para secar gatos; livros, jornais, revistas e fórmulas de pasta de dente eram para ser lidas em seu formato original. Enquanto computadores serviam apenas para assustar crianças de dez anos que não tivessem pré-disposição para desenvolver uma miopia superior a seis graus.

De '95 para cá, tantos bits passaram por baixo da ponte que seria estupidez manter o mesmo discurso. No ano seguinte, vi (o verbo é esse mesmo, pois não acessei, acessaram para mim) pela primeira vez uma página de web. Em '97, naveguei pela primeira vez e criei minha primeira conta de e-mail. Em '98, aprendi a usá-la. Mais um ano até começar a usar a rede como ferramenta de pesquisa. Só no ano passado baixei o meu primeiro mp3. E neste kubrickniano 2001 trabalhei em um site, e já nem sei mais quantas contas de e-mail tenho.

Só estou esperando uma coisa para poder dizer que estou livre do pecado de não ter acreditado nas palavras daquele homem que profetizou a internet para mim: achar onde se esconde o “acervo de todas as bibliotecas do mundo”. Mas antes preciso de outra maravilha tecnológica, por coincidência profetizada também por um ex-seminarista, a tal da linha telefônica do Sérgio Motta.

PS: Para compreender o sentido da série vá ao post original "Salvos pelo Backup"