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21.3.08

Supergrass, Roundhouse - 14/03/08

São quinze minutos antes das nove horas da noite, hora marcada para o Supergrass subir ao palco da Roundhouse para apresentar pela primeira vez em Londres, como atração principal, as músicas do novo disco, Diamond Hoo Ha. Um punhado de cambistas oferecem, abaixo do preço de custo, ingressos para a apresentação do quarteto de Oxford. Há um desespero visível na atitude deles que vai além dos 10% de desconto oferecidos sem que se precise pechinchar.

Faz anos, Supergrass é considerada por boa parte dos ingleses uma banda superada, que teve seu auge como coadjuvante da batalha entre Oasis e Blur pelo reinado do britpop. E assim são tratados por parte da imprensa, como uma banda que lança discos cada vez menos relevantes e que dificilmente fará algo comparável aos dias de glória de Alright.

Mas não é só isso que explica cambistas traídos pela lei da oferta e da procura em Camdem Town. Doze dias antes, na mesma Roundhouse, a banda havia dividido o palco com outras nove atrações. E, uma semana antes disso, menos de dois quilômetros ao sul, na continuação da mesma avenida, outra apresentação conjunta. Shows beneficentes, onde, diferente de hoje, o Grass não era a atração principal.

Mas cinco minutos dentro de uma Roundhouse inexplicavelmente cheia bastam para perceber que fãs a banda ainda tem aos montes -- e eles se provarão, ao longo da noite, serem mais empolgados que a média do público inglês, tipicamente blasé. Contudo, e talvez nisso a imprensa inglesa tenha razão, é um público que envelheceu com a banda. Achar alguém com menos de 23 anos seria tão difícil quanto comprar um ingresso na porta de um show do Artic Monkeys.

Um minuto passado das nove horas e a banda ingressa ao palco. Sem grandes segredos, apenas caminham rapidamente em fila, rumo aos seus postos. Existe, porém, algo de diferente, um quinto elemento empunha uma guitarra: é Charlie Coombez, irmão mais novo de Gaz, conhecido do público brasileiro por ter substituído Rob na apresentação de 2005, em Atibaia.

A empolgante Diamond Hoo Ha Man, primeiro single do novo álbum, como era de se prever, abre os trabalhos. Bad Blood serve de base para Danny soltar a mão à Keith Moon na bateria, e Rebel On You encerra a primeira sessão de novas. Boa recepção, gritos, assovios, mas nada comparado com o resgate de músicas mais antigas. Surpresa com She's So Loose. Brecon Becons, Kiss Of Life, St. Petersburg, essa de entusiasmadíssima recepção.

A presença do Coombez mais novo permite que a banda soe mais próxima do resultado obtido em estúdio. Ele auxilia Gaz na guitarra, sustenta backing vocals com o resto da banda e volta e meia ainda chacoalha algum instrumento de percussão. Algumas mais do disco novo, e força máxima rumo ao final. Vêm Richard III, Eon (outra surpresa) e Moving, onde até os pilares cantaram junto. "I've got blisters on my fingers", alguém da banda gritou, imitando Ringo ao final de Helter Skelter, para risos generalizados no momento de maior interação não-musical entre palco e público. Sun Hits The Sky e a multidão também, braços ao alto, copos de cerveja viajam pelo ar, ocasionalmente um ou outro corpo se insinua sobre as cabeças das pessoas. Caught by the Fuzz e Pumping On Your Stereo fecham a noite.

Alrigth? Nem sinal. A música, aliás, não faz parte do repertório da banda faz anos. E as caras sorridentes que desciam as escadarias da Roundhouse não indicavam que alguém tivesse sentido falta. Talvez de Grace, Mary, Late In The Day, Going Out, Rush Our Soul, ou o par de outras habituais que fariam, sem dificuldades, um set list em separado.

3.6.06

Lavando pra fora

Em novo álbum, Neil Young pede deposição de Bush
Chega ao Brasil "Living With War", disco em que Young defende o impeachment do presidente dos EUA e ataca a guerra do Iraque. Além de político, o rock do canandense está trepidante como há anos não se via

“Living With War”, trigésimo-segundo álbum de estúdio de Neil Young, é uma coleção de canções sobre política e guerra. Dito assim, pode até parecer pouco. Mas o registro que acaba de chegar às lojas brasileiras em CD é o maior manifesto político de um músico com quatro décadas de carreira, que já condenou a forma como a América foi conquistada e colonizada pelos europeus ("Cortez The Killer"); atacou a repressão aos movimentos pacifistas dos anos 1970 ("Ohio"); retratou as mazelas sociais do país que adotou como lar, os EUA ("Rockin' In A Free World"), e é um notório defensor de causas ambientais.

Nas nove faixas autorais de "Living With War" (Convivendo com a Guerra, em uma tradução livre), o roqueiro canadense, que mora na Califórnia desde meados da década de 1960, foca a campanha militar norte-americana no Iraque. Por 41 minutos e 36 segundos, Young critica a forma como as decisões foram tomadas em Washington; fala das manifestações anti-guerra; defende o diálogo ao lembrar que nem todo o mundo islâmico está ao lado do terror; retrata famílias vendo seus filhos irem para o front e soldados que voltam à terra natal dentro de caixas de madeira. E, na mais controversa das canções do álbum, "Let's Impeach the President", pede a deposição de George W. Bush.

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29.5.06

Salvos pelo Backup V

Resenha de “Live at the Greek”
Texto de fins de 2001
Título original: Corvo voa como o zepelim
Nota: como dá pra perceber, eu fiquei muito boquiaberto com esse disco

***
Reza a lenda que quem deu o nome ao Led Zeppelin foi o falecido Keith Moon. O baterista do Who teria sugerido um zepelim de chumbo por ser "pesado" e "voar". Vinte anos depois de terminada a banda, finalmente saiu o grande registro ao vivo que o Led Zeppelin prometeu em "The Song Remains the Same” e não cumpriu em sua plenitude. É “Live at the Greek”, duas horas de uma barulheira infernal resultante da união de forças entre o Black Crowes, dos irmãos Chris e Rich Robinson, e Jimmy Page.

Gravado em 1999 e lançado em 2000, mas chegando só agora ao Brasil, “Greek” é um disco de rock empolgante. Nem poderia ser diferente: um álbum gravado ao vivo, sem overdubs e registrando as músicas do Led Zeppelin com três (!!!) guitarras, sendo que duas delas pertencem à mais setentista das grandes bandas dos anos '90, e a outra ao próprio Jimmy Page.

Modernos, fiquem longe. A coisa mais inovadora deste álbum é o fato de ele ter sido lançado primeiro na internet para depois uma gravadora adotá-lo. No quesito sonoro, "Greek" apenas recicla. Ou nem isso. Xeroca. Mas quando se trata de abrir baú para colocar batas empoeiradas ao sol, o Crowes faz melhor que ninguém. A banda reafirma sua grande qualidade retrô. Coisa que quem ouviu “Shake Your Money Maker” já sabia desde 1990. A música mais recente em “Greek” foi escrita quando os Robinson passavam as tardes assistindo Muppets Show na TV. A base do repertório é do Led. E o clima é de 1973. Mas a maior qualidade é que os caras conseguiram chegar muito próximo à sonoridade do Led Zeppelin, em um trabalho de escolha de equipamentos que só pode ter sido obra de quem criou o original. No caso, Page.

Nenhum fã doente do Led apostaria seu "Physical Graffiti" original em vinil 180 gramas. Mas nos primeiros segundos da parede sonora quase impenetrável de "Celebration Day", ele até poderia confundir a banda de Atlanta com o quarteto inglês. O timbre das guitarras, a saturação dos amplificadores, e até mesmo a pegada máquina-de-misturar-cimento de Bonzo. Tudo muito igual.

Além do repertório do Led ("Ten Years Gone", "Custard Pie", "Sick Again", "In My Time Of Dying"...), o CD tem ainda o clássico “Shapes of Thing” dos Yardbirds, e uma versão encorpadíssima para “Oh, Well”, de Peter Green e seu Fleetwood Mac. Se Moon ouvisse, certamente diria que o corvo de chumbo também é pesado... e voa.

PS: Para compreender o sentido da série vá ao post original "Salvos pelo Backup"

23.5.06

Salvos pelo Backup I

Resenha: "Alta Fidelidade"
Texto dos idos de 2000
O aquivo original não tinha título
Nota: resenha é curta assim pois era pra uma cadeira de radiojornalismo


***
Certamente você já ouviu falar na expressão ler de uma sentada só. Pois esse é o caso do surpreendente best seller de Nick Horny, "Alta Fidelidade". O livro ganhou uma versão cinematográfica e outra em teatro e transformou-se em um fenômeno só comparável nos últimos dez anos ao Nirvana, do saudoso Kurt Cobain.

Dono de um estilo simples e direto, Hornby usa e abusa das comparações para construir sua história. Rob Gordon é um homem de trinta e poucos anos que se nega a entrar no mundo adulto, orgulhoso de seus conhecimentos sobre o mundo pop. As situações são cômicas porque são comuns: ou seja, se você não é como Gordon, certamente tem um tio, um primo ou um amigo muito parecido com o protagonista de "Alta Fidelidade". O livro saiu no Brasil pela editora Rocco. E é preciso saudá-la por ter lançado a obra de Hornby antes dela ir às telas – depois seria muito fácil.

Voltando à história, Gordon tem uma maneira muito peculiar de gastar seu tempo. Passa noites e noites re-re-re-organizando seus discos, brinca de DJ em boates, apaixona-se com a mesma freqüência com que faz listas dos "cinco mais". Dos cinco melhores pé-na-bunda de namoradas às cinco melhores aberturas de lados B de discos, tudo no mundo dele pode ser catalogado. E é lado B mesmo, pois, em "Alta Fidelidade", o vinil, especialmente o de época, é mais importante que CD. É um livro para ser lido a 33 RPM. Sempre de uma sentada.

Se você ainda não foi ao cinema ver o filme, prefira conhecer a história antes na poltrona de sua casa. Seria a opção de Gordon.

PS: Para compreender o sentido da série vá ao post original "Salvos pelo Backup"

5.10.05

Tambores ensandecidos

Não é muito o propósito inicial de MI, mas como as coisas andam paradonas vou abrir uma exceção. Que apresentação da Nação Zumbi no Opinião ontem! Uma banda que havia sido condenada a um fim trágico quando da morte de Chico Science faz hoje fácil o melhor show do país. Na verdade, a banda é tão boa, e o show é tão foda que não tem muito a dizer que já não tenha sido dito.

Toda banda de rock que usa três ou mais percussionistas tem grandes chances de ser um lixo. Pois a Nação Zumbi é a exceção que comprova a regra. Apesar da quantidade de baquetas, a banda é enxuta e nada parece exagerado. Que outra banda tem mais de 60% dos integrantes na cozinha e soa rock como eles? Que outra banda tem oito integrantes e apenas um guitarrista e faz um som tão gordo e violento capaz de fazer muito metaleiro pedir água? Que outra banda é tão versátil que põe a galera pra pogar em um momento, e no outro faz todo mundo se balançar feito lombrigas eletrocutadas na pista?

Há uns cinco anos, para poder ver um show do Mundo Livre S/A, agüentei no mesmo palco Cordel do Fogo Encantado e Otto. Do lado de Mundo Livre, Cordel parecia uma banda marcial de colégio sem regência. Fico pensando se fosse ao lado da Nação Zumbi: seria algo próximo àquele tiozinho cego que toca violão com folha e pandeiro na Redenção.

Claro que todos que assistem ao show devem se perguntar onde estaria a banda se Chico Science ainda fosse vivo. E eu confesso que achei que Jorge du Peixe não daria certo no lugar de dele. Mas, embora não tenha o mesmo carisma, o cara sabe comandar o espetáculo. E deve ter uma personalidade do caralho. Poucos seriam capazes ocupar o lugar do Chico sem falhar miseravelmente.

Sobre Lúcio "Melhor Guitarrista do País" Maia só é necessário dizer que, sim, o cara é o melhor guitarrista do país.

Outro ponto positivo: não olham o retrovisor na hora de montar o set list. Seria fácil, muito fácil tocar 80% do "Afrociberdelia" [1995] e do "Da Lama ao Caos" [1993], fazer o pessoal pular o tempo todo e ganhar grana como banda cover. Mas boa parte das músicas vieram do ainda inédito "Futura" (sai em 15 de out.) e do mais recente, "Nação Zumbi" [2002]. Pra não dizer que foi perfeito, as incursões hip-hop bem que poderiam ser esquecidas, mas são tão poucas e irrelevantes que vale a pena aturar e até mesmo aplaudir.

Outro destaque: o público. Em certos momentos tinha-se a impressão de que todos estavam descalços e o chão do Opinião era feito de incandescentes chapas de aço. E ainda teve Walverdes abrindo. Patrick quebrou uma corda do baixo na primeira música e foi assim até o fim. Curto, mas intenso. Som bom e alto. Achei que a galera não ia entender os Walverdes, mas me enganei. Rolou até pogo em "Meu Bar" e "Câncer". [9/10]